Filho, não temais….

Meus filhos. Pretendo nessas modestas linhas, passar a vocês um pouquinho mais do que passei em vida. E permita ” Zambi Maió” fazer com que as palavrinhas que esse “nego” fala, toquem a alma de cada um, como exemplo, para que tenham esperança nos dias difíceis que venham a passar.
Já falei um “cadim” da minha infância. Pois agora vou falar dos meus momentos, já rapazola.
Na minha meninice, mesmo em meio a tantas dificuldades, sozinho no mundo, “trabucando ” a terra de sol a sol, eu ainda mantinha um sorriso no rosto. Era como uma válvula de escape. Quanto mais difícil estava o peso da enxada, mais eu sorria.
Diziam: “aquele moleque trabalha dando risada,como pode?”.
Simples. Quando eu trabalhava, com as mãos calejadas, desidratando de tanto suor, com os pés rachados , eu estava em oração, e nem percebia isso.
Nem eu sabia direito o que era oração.. Mas enquanto meu corpo ia mecanicamente trabalhando.. Minha mente partia para esferas distantes. Sem perceber, eu entrava em êxtase. Pensando em coisas boas, em um mundo melhor, onde os brancos tratariam os negros com o mesmo respeito que tratavam as outras pessoas. Eu tinha visões de cachoeiras, de matas virgens, de crianças de rostos angelicais brincando à beira de um rio. Eu via pessoas sorrindo, e talvez, nem entendendo a razão, minha mente expandida fazia-me ver coisas tão doces, que essa expressão de alegria e felicidade refletia-se em meu rosto, mesmo que sangrando e suando o dia todo no cabo da enxada.
E assim eram todos os dias, trabalhando, macerando a minha carne, mas entrando em profundo êxtase espiritual.
No final do dia, as pessoas até me criticavam e diziam: ” como pode esse moleque trabaiá o dia inteiro, e sem comer, e fazer um serviço que nem nós fazemos tão bem feito?”.
De fato, eu trabalhava o dia todo, nem comia nada. A mirrada marmita que levava para o almoço, que o sol esquentava, só ia lembrar de comer, fria, no final da tarde. Isso, quando não doava minha comida a algum “nego” irmão, que fraquejasse durante o dia de labuta.
Um certo dia, em meio a meus êxtases, enquanto meu corpo endurecido, trabalhava como uma máquina, resvalei e pisei numa cobra que estava enrolada embaixo de um pé de café.
Na mesma hora tomei um açoite. Foi como o açoite, que açoitava as carnes do próprio Cristo, pois a partir daí, desmaiei e vivi minha Via Crucis.
Em meio à alucinação provocada pelo veneno da jararaca, suores e dores terríveis. Senti meu espírito deixando meu corpo aos poucos. Eu queria respirar, mas meus pulmões cheios de bolhas e coágulos já não davam conta de respirar, eu queria respirar, mas não conseguia. Eu queria gritar, mas as dores que paralisavam minha garganta, eram tão fortes como as terríveis câimbras que não me permitiam levantar.
Três dias se passaram, e eu via o Cristo sendo açoitado, levando sua cruz, sendo crucificado, e com ele fiquei três dias. Enquanto eu via “Nosso Sinhô” na cruz, sofrendo, eu me via preso em meu corpo, agonizando. Foi quando minha consciência fundiu-se à consciência de “Nosso Sinhô”. Foi quando ele me disse, eu queria respirar, e não consigo, aqui preso na cruz. Eu eu respondia, eu sei meu pai! Eu sinto a mesma coisa.
O mestre esperava que sua dor passasse, e olhava pro céu pedindo pra que Deus tivesse piedade e o tirasse daquela “judiaria”. Enquanto eu olhava pro seu sofrimento, e dizia, me deixa viver “Sinhô”.
Foi quando vi um clarão, e em minha vista agora cegada, apareceu uma Senhora negra, vestida com um manto azul, e uma coroa.
Ela veio descendo de uma núvem, e parou bem pertinho do pé de café em que eu não sabia se era um vivo ou um morto, e disse: “Joaquim, não temais”…
O maior ensinamento que o “nego” teve naqueles dias, foi “Não temais”.
Pois eu digo hoje, meus filhos. Por pior que seja a situação que macere sua mente, seu espírito, seu corpo.. Não temais!
Fica “prum” outro dia a continuação dessa prosa, mas acima de tudo meus filhos, Não temais!
Deus abençoe sua labuta e seu sono reparador, hoje!

Joaquim de Angola

Canalizado em linguagem atual…