A Importância do Sorriso

Meus filhos, passarei agora a contar a vocês um pouco da história que esse “nego” passou na última encarnação, e peço a Deus para que sirva de alguma valia nas vidas de todos vocês.
Esse “nego” era marcado pelo sorriso. Desde moleque, mesmo durante os difíceis fardos diários, sempre sorria.
Vi minha mãe morrendo velhinha, e já sem os movimentos das pernas, quando lançaram a lei do sexagenário. Ainda nesse triste dia, não chorei. Criança é “ansim” no dia seguinte, já estava sorrindo e brincando.
Passei minha vida servindo em fazenda de café, e não aprendi a conhecer o mundo que existia fora dela.
Meu dia era acordar de madrugada, com o galo cantando, partir pro trabalho braçal, machucando-me em meio às quiçaças.
Sempre brincando , sempre sorrindo.
Esse “nego” desde pequeno aprendeu a encontrar a felicidade das crianças brancas, mas nos pequenos boizinhos de tocos e ossos que encontrava, e fazia de brinquedo. Meu mundo era dividido entre o trabalho forçado (que aprendi a fingir ser brincadeira) e as poucas horinhas,que brincava com ossinhos, no barracão comum em que morávamos.
Sem mãe, sem ter conhecido meu pai. Tendo sido criado por vizinhos, aprendi a ser feliz, mesmo no meio do que hoje as pessoas chamariam infelicidade.
Acho que desde muito cedo, na inocência de criança, aprendi a rir das vicissitudes. Aprendi, que ignorar o porvir, e não sofrer com o dia vindouro, se haveria ou não fubá suficiente para o Angú comum, era o melhor refrigério para minha vida simples.
Minha alimentação era à base de fubá cozido em água, folhas de palma amargosas, picadinhas e refogadas, e uma galinha aos domingos. Para as crianças sobravam os pedaços menos nobres. E eu, em minha simples inocência, encarava aqueles pedaços magros, como sendo um delicioso manjar. Frutas, tínhamos de tudo que o cerrado nos oferecia, entre ingazeiros e pés de araçá. Refestelava-me quando íamos “panhá” abius, mangas e “marias pretas”, que fingia serem os morangos que os brancos comiam.
Nas beiras de rio , aprendi a comer larvas de taboas, coisa que os bugres da região faziam.
E sempre com o sorriso no rosto. Isso tudo até meus quatorze anos, quando minha vida tomou um rumo diferente.
Hoje, meu sorriso continua o mesmo, atendendo meus filhos nos terreiros. Diante das dificuldades da vida, aprendi que chorar não resolvia.
Essa era minha realidade. Como não tinha ansiedades, eu não sofria.
Hoje, choro de emoção, quando dou conselhos aos filhos…
Hoje, vejo os filhos ansiosos porque não conseguem pagar as contas de carros, aluguel. Vejo filhos angustiados porque não conseguirão dar a festa de quinze anos que sua filha merecia tanto.
Vejo filhos ansiosos porque querem trocar seus carros, porque querem novos cargos, em empresas mais destacadas. Porque querem muito viajar para fora com sua família no fim do ano.
Vejo filhos, que não conseguem dar vazão à incorporação, ou à prestação do serviço mediúnico, porque suas cabeças estão cheias de ansiedades.
Meus filhos, façam como o “nego” fazia. Não se preocupem. Ocupem-se de ser pessoas boas. Não sejam maledicentes jamais. Não apontem os erros dos outros, pois aquele que levanta falso testemunho, é o mesmo que cobiça.
Sorriam sempre. Mesmo diante das dificuldades da vida.
O mundo do “nego” era tão limitado. Mas foi nele que nasci, cresci, e hoje posso dizer que venci… Pois tenho vocês aprendendo e “alumiando” os santos trabalhos que pratico na terra.

Pai Joaquim de Angola

(Canalizado e com linguagem adaptada aos dias de hoje)