Meus filhos, (mensagem final)

Nessa quarta e derradeira cartinha, esse nego vai contar um pouco mais do que passou no último encarne, e de que forma, ando pelejando pra colocar nas palavras, o ensinamento que tive, de maneira que tudo que passei, seja a Boa Nova, que traz paz, amor e caridade.
Não me resta muito que falar, depois do meu retorno da aldeia, onde cheguei encomendado pra morte, e onde fui curado pelas mãos benfazejas de uma índia, que meu preconceito chamava de inimiga.
Assim como aconteceu com o Samaritano que todo mundo julgava ser ruim.. Eu julgava nossos irmãos que viviam em aldeia.
Envenenado pelo ódio do branco que entrava na senzala, e dizia o que nego tinha que pensar, e “inté” o que nego tinha que “querê”.
Muitos anos se passaram na minha labuta eterna de servir o branco, sem esperança de liberdade.
Mesmo porque, pra um nego que não teve nada, quando fica “véio”, de que serve a liberdade?
Aprendi a “comê” resto de Sinhozinho, e fazer das migalhas, o manjar mais delicioso. Porque dentro de mim, eu tinha a alegria de estar vivo.
De domingo, os “branco” nos forçava “inté” a ir na missa.
Nego não entendia quase nada que aquele padre falava de costa pro povo. E quando subia no tal do “púrpito”, o lugar reservado pros preto era tão longe e nos fundos, que nem se ouvia, e nem se entendia o linguajar do padre.
Uma “veiz” inté cheguei perto do Padre, e fui pedir pra esclarecer uma idéia da liturgia que eu não tinha entendido.
Levei as resposta: “sai pra lá negro sem alma”…” Se vocês não entendem a palavra de Deus, é porque vocês não tem o merecimento da Boa Nova e do Céu, prometido do Evangelho”.
Aquilo me amargou por dentro..
Passei anos matutando… Mas se Deus é “bão”, então ele há de receber “tomén” os nego no seu reino…
Uma noite muito fria de junho, quando já fraquejava as pernas do nego que já era velhinho, de friagem, deitei, e ali, fui perdendo os sentidos.. Nessas horas, não tinha quem acudisse um nego véio. Tava todo mundo quentinho nas suas casas.
Nego já tinha vivido tudo nessa vida, aprendido de tudo.. e ali, deitado em cima “duns tronco de madeira”, Nego desfaleceu.
Nessa hora, minha consciência já tava com Deus. Embora meu coração ainda fraquinho, estivesse quase parando de vez.
Dois homens troncudos vieram, pegaram um monte de madeira de uma vez no escuro, levaram numa carroça, e jogaram numa fogueira há umas léguas dali.
O corpo no nego tinha sido confundido com as madeiras, e ali ardeu, já sem vida.
Uns tempos “dispois”, o nego acordou todo com saúde, num lugar de luz, e uma Dona muito formosa me acordou e disse:
“Joaquim, é hora de acordar e ir buscar as pessoas pra sala de cura”.
Nego foi com um grupo de boas almas, a um lugar muito escuro, muito feio, muito triste.
E ali, estava há muito tempo, uma alma sofrida, que agora, pela minha mão, ia poder subir pro espaço de luz onde agora eu vivia.
Era a alma do Padre, que um dia me destratou e disse que eu não merecia Deus.
E agora, pela lei Divina, eu entrava de mão dada com ele, nas paragens dos orbes superiores, que nos elevam ao seio do Criador.
Com essas palavras, me despeço, e deixo nessas quatro cartinhas, meu Evangelho pessoal.. tal como os evangelistas plantaram a semente da bondade no mundo, mesmo que mal regada pelos homens. Eu planto nas minhas cartinhas, essa flor de lírio, que se chama Paz, Amor e Caridade..
Deus vos Guie, meus filhos..

Joaquim de Angola