Ninguém é dono, nem melhor que ninguém

Meus filhos.
Esse “nego” pede licença para incomodar suas leituras, mas por serem mais de leitura que eu mesmo, que não tive letra no último encarne, peço a Deus que tenham entendimento das palavras que vou falar, de quando tudo parecia perdido na minha vida de rapazola.
Estava eu, picado mortalmente de uma cobra ” viradeira”. Dizia-se que viradeira, era o tipo de cobra que dava o bote, e o infeliz virava no seu leito de morte dia e noite, contorcendo-se de dor, e fedendo em vida, pois as carnes já lhe começavam a estragar com a necrose do veneno.
Estava eu, entre a vida e a morte, “pelejando” pela vida.. Ainda que a vida de um escravo não fosse lá essas coisas.. Eu queria viver.
No meu delírio, vi a própria Virgem Maria que dizia, “Joaquim, não temais”.
Desmaiei e acordei, nauseado por um cheiro forte de tabaco e ervas queimando em minhas ventas.
Abri os olhos. Era uma rezadeira índia! Sim, da qualidade de índio coroado. Essa raça de índio, que raspava o cabelo feito Franciscano, tinha fama de ruim, de traiçoeiro.
Lembro-me que meu “Sinhô” dizia: “Se um dia encontrar um coroado, faça como faz com as cobras. Mate!”
Olhando ao redor, essa senhora rezadeira, era guarnecida pela figura de dois índios mal encarados e parrudos. Confesso que tive medo.
Ela me deu uma cuia, com uma beberagem muito amarga, sinalizando que faria bem. Olhei dentro dos olhos dela, e em seu olhar triste e firme, bem dentro das “meninas” de seus olhos, vi a Senhora benfazeja que me apareceu no pé de café e disse .” Joaquim, não temais”.
Passou-se uma tarde toda, já sentindo-me melhor, os índios me levantaram e me levaram até a porta da maloca onde fiquei alguns dias , sendo cuidado por um povo que eu considerava inimigo.
A curandeira veio em minha direção, apertou-me os ombros, como dizendo, já está forte. E disse algo em sua língua, a um curumim que se aproximou.
Rapidamente o rapazinho de uns 10 anos disse:” Avó fala pra “nego” nunca comer doce, usar de remédio as folha amargosa, porque sua bile vazou”.
Em seguida, sem muita cerimônia, os dois índios fortes apontaram um rio, e para onde eu devia seguir viagem.
Sei que aquela foi a forma fria de dizer, “vai com Deus”, na concepção deles.
Agradeci com os olhos cheios de lágrimas e passei 2 dias caminhando, “inté” enxergar as terras da fazenda onde eu servia.
Na minha caminhada, vinha matutando ” Quem seria esse curumim que falava minha linguagem…”
E por tudo que passei. Quase descendo à mansão dos mortos, fui tratado por aqueles que eu aprendi a odiar, porque meu “Sinhô” ensinou que branco era melhor que “nego” e índio não era gente.
Pois, assim como aconteceu na parábola do bom samaritano, eu fui cuidado e salvo por aqueles que eu odiava.
Muito depois , já nessa minha existência como espírito comunicante, vim saber que aquele curumim, fora um indiozinho que um “dotô” mandou pegar no mato, e quis dar educação de branco. Ensinou de tudo.. Modos, língua, e deixava até o menino ler seus livros de Anatomia. Esse “dotô” não aceitava a escravidão, e deixava o menino de tempos em tempos, voltar e visitar sua tribo.
O menino cresceu e tornou-se um grande médico, e ainda hoje, trabalha nas linhas de cura, aqui em nossa colônia espiritual.
Pois aí vem o grande ensinamento: Deus permite que o povo odiado mande um dos seus, para curar branco, negro e índio.
Deus já se mostrava entre os homens, através das atitudes dos seus jovens, que somos todos iguais.
E Deus provava amar aqueles desvalidos, como eu, atendendo meu único pedido: Viver!
Meus filhos, com essas linhas, eu me despeço, desejo uma noite de paz em seus corações e deixo a lição: Ninguém é dono, nem melhor que ninguém..

Joaquim de Angola